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 Rio Claro, 04 de Setembro de 2010
 

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Sábado, 04 de Setembro de 2010
Um Pouco Mais Sobre Meio Ambiente, Edmundo Navarro de Andrade e a Floresta Estadual - Parte 1
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Ultimamente, a preocupação com a questão florestal tem crescido significativamente em todos os meios. Todavia, o preocupar-se não levará ao encaminhamento definitivo do problema do rareamento dos recursos florestais e da degradação do meio ambiente.  Somente pensar o problema não nos leva para lugar algum. É preciso agir. A voracidade pelo lucro imediato presente na maioria de nossas sociedades apóia-se unicamente na dimensão econômica da relação homem/meio ambiente, cujas conseqüências apresentam-se de forma assustadora para as gerações futuras. Este tipo de atitude mudará somente quando percebermos quando esta autodestruição coletiva vir a representar uma ameaça iminente para cada um em particular e para a totalidade da sociedade.  Isso somente será revertido se e quando houver a ampliação do conhecimento, através da cultura, o que levará a humanidade a interferir na percepção e na valorização das relações de interação do Homem com a natureza.

Os países mais desenvolvidos, que, por sua vez são os maiores consumidores de produtos florestais, atualmente estão exigindo que os mais pobres preservem suas florestas. No entanto, com sua sede de cobiça e consumismo, continuam importando - e pagando caro - pelas madeiras extraídas das florestas tropicais.

O desenvolvimento "a todo custo" das nações mais ricas da Europa, comprometeu de modo irreparável sua cobertura arbórea.  Mas isso não deve ser levado em conta e nem justifica a depredação florestal praticada nos países subdesenvolvidos, a maioria deles situados em região tropical, pois, tal destruição, além de não ser motor gerador de riquezas sustentável para os beneficiários, provoca danos irreparáveis à biodiversidade, colocando em risco de extinção diversas espécies vegetais e animais.

Muitas são as normas legais que tratam do assunto florestal. Mas o que se constata é o descumprimento de tais normas, e isto vem acontecendo sistematicamente, não apenas por desconhecimento de muitos, mas também, entre outras coisas, pelo imediatismo com que costumeiramente se dá a exploração econômica das florestas.

Freqüentemente tais normas são descumpridas, às vezes pela inoperância das autoridades competentes, outras tantas pela impotência e descaso. Por outro lado, a grande maioria da população é desinformada, e como conseqüência, mostra desinteresse e descompromisso. Mesmo quando a prática predatória é evidente, não se manifesta e nem colabora com as autoridades. Por outro lado, o infrator quase sempre fica impune e, portanto, permanece sem ter sua sensibilidade abalada com o desequilíbrio que provocou.

Quero chamar a atenção para que o legado do trabalho de toda uma vida dedicada a Silvicultura - como foi a de Edmundo Navarro de Andrade - não entre nas trevas da história como aconteceu com o acervo documental do Horto Florestal de Rio Claro, sede do Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, e base do cientista. Toda a organização da Floresta Estadual (antigo Horto) é o resultado de seus esforços. Em 1909, Navarro deu inicio à construção do Horto. Foi sua a idéia de tentar a aclimatação dos eucaliptos no Brasil, obtendo sucesso após anos de experiências.

Foi Navarro também o pioneiro no Brasil nas atividades de reflorestamento e de preservação florestal. Durante longo tempo, desenvolveu um intenso trabalho de pesquisa para encontrar meios de suprir as necessidades da Companhia Paulista de Estradas de Ferro sem destruir as matas nativas do estado. A Companhia, proprietária do Horto, nele buscava dormentes, mourões, postes, lenha para queimar, enfim, madeira que pudesse atender ao funcionamento da ferrovia. Tais pesquisas tornaram o Horto uma referência internacional para estudos genéticos envolvendo o eucalipto.

Na Floresta Estadual há também um acervo documental específico - o herbário. Grande parte dele veio da Austrália. Foi um presente dado ao Edmundo pelo cientista H. J. Maiden. Navarro foi um cientista conhecido mundialmente, publicou mais de uma dezena de livros, o que o levou a ocupar uma das cadeiras da Academia Paulista de Letras, juntamente com Monteiro Lobato, de quem se tornou amigo pessoal.
Foi ainda resultante de seu trabalho a criação do Museu do Eucalipto. Originalmente composto de dezesseis salas nas quais eram comparadas, através de quadros, gráficos e objetos, as utilizações do eucalipto e de outras essências florestais, o museu exibia peças como a Medalha Meyer, que Navarro recebeu em Washington, em julho de 1941, diversos móveis entalhados em eucalipto, e a história das primeiras pesquisas com o eucalipto citriodora. Além disso, o museu guardava ainda muitas outras preciosidades, como as informações sobre a cultura da laranjeira; exemplares de animais taxidermizados que habitavam as florestas de eucalipto do estado; bumerangues de mais de 800 anos trazidos da Austrália (tais bumerangues foram presentes dados a Armando Navarro Sampaio, sobrinho de Edmundo, quando esteve na Austrália em 1952. Sampaio deu continuidade aos trabalhos do Serviço Florestal após a morte do cientista); desenhos em pastel seco das flores e das folhas das essências florais do estado de São Paulo; amostras de outras madeiras nacionais; elementos de seus estudos sobre a broca do café e muito mais. Como cientista, Navarro não foi simplesmente um colecionador de coisas: ao criar o Horto Florestal, organizar o Museu do Eucalipto, o Herbário e o Arboreto, deixou-nos um verdadeiro centro cultural no mundo da silvicultura que precisa ser preservado. O trabalho feito por Navarro não visava lucros imediatos. Era um investimento para o futuro.

Mas nem sempre o Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro foi exaltado pela sua grandeza. Ele não foi poupado, principalmente no início de sua existência, pela crítica dos que se auto-intitulavam "nacionalistas". Segundo eles, tudo ali estava errado: desde a escolha da essência para a formação de suas matas e a distância adotada nas suas plantações, até as diferentes aplicações que se dava às madeiras. Outros agrônomos criticaram o plantio em larga escala do eucalipto em terras brasileiras. Existia uma propaganda em volta do eucalipto, acusado de secar o solo. Por anos ele havia sido plantado em áreas insalubres, pois acreditava-se que tinha o poder de tornar áreas alagadas em locais habitáveis. É que a retirada de água é proporcional ao tamanho da sua árvore nos primeiros anos de crescimento.

Segundo Navarro, aconteceu com o eucalipto, em nosso país, um fato verdadeiramente interessante: durante décadas, ele foi considerado como a única árvore capaz de reconstituir as nossas florestas, mas quando a Companhia Paulista resolveu estabelecer pela primeira vez no Brasil a cultura florestal do eucalipto com rigor científico, foi como se ele tivesse perdido todas as suas virtudes.

Toda a crítica partia de alguns agrônomos e de muitas pessoas leigas. Os ataques começaram por condenar a exígua distância adotada para as plantações. Porém, tudo o que foi feito no Serviço Florestal, foi conseqüência de anos de pacientes estudos e observações no Brasil e em todos os países em que existiam culturas de eucaliptos. Para Navarro, todo o tempo gasto com os experimentos deveria ser contado em dobro, devido às muitas dificuldades encontradas e que algumas vezes, tinha que ir estudar fora do país o que se fazia no ramo do reflorestamento. A crítica, porém, não lhe concedia o direito de entender alguma coisa de um assunto que ele vinha estudando na teoria e na prática durante anos. Faziam-lhe a injustiça de supor, ou de querer que os outros supusessem, que tudo o que se tinha feito era por puro palpite.
...esse artigo será concluído na próxima semana.

História, Geografia e Meio Ambiente por Augusto Jeronimo Martini

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